Com a catástrofe no Japão, a energia nuclear voltou ao centro do noticiário depois de anos distante dos holofotes. Não faz muito tempo, houve quem defendesse seu uso devido às suas ‘vantagens’ socioambientais: além de ‘segura’, a energia nuclear parecia ambientalmente sustentável, na medida em que não emite CO2.
Em qualquer outra circunstância, seria prudente ressaltar que momentos dramáticos como este são impróprios para discussões calcadas na racionalidade. De todo modo, é fato que o mundo todo passou a rever seus protocolos de segurança. E também suas alternativas energéticas. Convenhamos, não se trata de uma escolha fácil.
Por um lado, os evidentes danos ambientais do uso do petróleo, somados à carestia e às tensões geopolíticas que sua virtual escassez provoca impedem que ele continue sendo visto como uma alternativa realista. Por outro lado, devido a contingências geológicas, materiais e humanas imprevisíveis, a energia atômica jamais será 100% segura.
O alto rendimento da fissão nuclear, que gera grandes quantidades de energia a partir de uma pequena porção de combustível atômico, faz dela algo atrativo para países com limitações de espaço, de clima e de recursos naturais. Viabilizar economicamente tecnologias energéticas limpas em larga escala me parece o único caminho verdadeiramente sustentável.
No entanto, no caso brasileiro especifi camente, o bom senso se impõe à discussão. É irracional levar adiante um plano de expansão de usinas nucleares num país riquíssimo em recursos hídricos como o Brasil, com vastos campos para o cultivo de biocombustíveis, com 300 dias de sol por ano e com uma costa de oito mil quilômetros banhada pelos ventos atlânticos.
Nossa capacidade hidrelétrica segue em expansão, e ainda há centenas de pequenas centrais hidrelétricas a serem exploradas, como em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Basta visitar o Rio Grande do Norte e o Ceará para se ter uma ideia de como a energia eólica já é uma realidade. Em pouco tempo, a energia solar também será viável em grande escala. Se não bastasse, só no estado de São Paulo temos bagaço de cana suficiente para gerar tanta eletricidade quanto Itaipu.
Não vale a pena entrar no mérito da defesa econômica da energia nuclear. Sob todos os aspectos, ela não pode ser prioritária num país como o Brasil. Já do ponto de vista estratégico, argumento central do governo, acho ainda mais irrelevante a defesa da expansão das usinas atômicas.
Para uso pacífico, a energia atômica não nos é vantajosa. Para uso militar, é impossível, devido aos protocolos internacionais de não proliferação de armas nucleares com os quais a sociedade brasileira se comprometeu. Aliás, a tradição pacifista e multilateralista da Política Externa brasileira nos últimos 100 anos torna tal discussão naturalmente um disparate.
O argumento segundo o qual o domínio da cadeia tecnológica da energia nuclear é ‘estratégico’ para a soberania nacional também é frágil. Na era da informação, das redes sociais, do tempo real, do encurtamento das distâncias, o domínio da tecnologia de telecomunicações e de supercondutores, por exemplo, me parece ter um apelo estratégico bem mais plausível. Além do mais, a soberania de um país se conquista com democracia.
Devíamos estar discutindo o aprimoramento da segurança nas plataformas de petróleo brasileiras. Como mostrou o jornalista Luiz Maklouf Carvalho, em edição recente da revista Piauí, as falhas nos planos de emergência durante as simulações de acidentes nas plataformas brasileiras são preocupantes – sobretudo com os desafios do pré-sal. O acidente no Golfo do México nos serve de alerta.
O Brasil devia estar debatendo a descentralização do planejamento energético, para que cada Estado possa utilizar livremente suas potencialidades, gerando energia abundante e limpa. O verdadeiro interesse deveria recair sobre as fontes alternativas, o cumprimento das metas de redução de CO2, a eficiência energética, o fim dos gargalos na transmissão e na distribuição.

No entanto, é preciso equilíbrio neste momento, sobretudo em respeito ao sofrimento do povo japonês. Seria inapropriado reduzir o pesadelo atômico a uma discussão política mesquinha. Porém, é preciso apontar a irracionalidade da expansão da energia atômica num país como o Brasil. Todas as justificativas em sua defesa se assentam numa visão de mundo ultrapassada.
* Economista, deputado federal e ex-presidente nacional do PSDB. Atualmente, é secretário de Energia do estado de São Paulo
FONTE: REVISTA VOTO
* Economista, deputado federal e ex-presidente nacional do PSDB. Atualmente, é secretário de Energia do estado de São Paulo
FONTE: REVISTA VOTO
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