pppppppppppp

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Bruno Covas é o nome preferido de Geraldo Alckmin para disputar a prefeitura de São Paulo no ano que vem.

Bruno Covas ainda era um adolescente quando deixou Santos e veio morar com o avô no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo. Ele guarda poucas mas valiosas lembranças do tempo em que viveu sob o mesmo teto que o avô, Mário Covas.

"Ele não gostava muito de abrir a boca. A gente é que ficava espetando. Uma vez eu voltei de uma festa de madrugada e ele estava acordado vendo TV. Perguntei se tinha perdido o sono e ele deu uma resposta desconcertante: ‘Você viu o frio que está lá fora? Como eu vou conseguir dormir sabendo das pessoas que não têm onde morar?'".

A primeira experiência política de Bruno aconteceu por acaso. Ele estava de casamento marcado e concentrado em terminar duas faculdades - economia na USP e economia na PUC - quando foi convidado a ser candidato a vice-prefeito de Santos pelo PSDB. Acabou em segundo lugar, mas ganhou notoriedade em sua cidade natal.

Em 2006, elegeu-se deputado estadual pela primeira vez. Em 2010 renovou o mandato, mas acabou aceitando o convite de Geraldo Alckmin para assumir a secretaria de Meio Ambiente do estado. Com 30 anos é o mais jovem titular da pasta. Uma vez no cargo, ele assumiu a árdua tarefa de enfrentar o debate em torno das implicações ambientais relacionados às obras do Rodoanel.

Vale lembrar que o complexo viário leva o nome de seu avô, o ex-governador Mário Covas. Depois de passar por um período de imersão, Bruno foi à campo e tomou a iniciativa do debate. A desenvoltura que ele demonstrou no cargo o credenciou como candidato preferido do governador Alckmin para disputar a prefeitura de São Paulo no ano que vem pelo PSDB.

Ser prefeito de São Paulo é um projeto que está no horizonte político?

É dificíl você apontar um político que não tenha esse desejo (risos). É a mesma coisa que perguntar para um jornalista se ele gostaria de ser diretor de redação. Para candidaturas ao legislativo é preciso de desejo pessoal. Mas para o executivo o desejo precisa ser coletivo.

Seus eleitores de Santos, sua base, não vão ficar com ciúmes?

Esse é outro problema a ser administrado. Mas o partido lá deve caminhar para outra candidatura, do secretário Paulo Alexandre. Então não existe esse dilema.

Já transferiu seu título de eleitor para São Paulo?

Não. Não tenho pressa em relação a isso. Quem está afobada é a imprensa.

É a favor da realização de prévias para que o PSDB escolha seu candidato a prefeito em São Paulo?

Sim. Acho importante. É um momento de participação do militante na vida do partido.

E se o Serra decidir disputar a prefeitura?

Ele é um candidato natural. Se ele decidir disputar, eu abro mão. Não existe a menor hipótese de uma disputa minha com ele nas prévias.

Ao romper com o DEM e se aproximar de Dilma, Gilberto Kassab explodiu pontes com o PSDB?

De forma alguma. O prefeito pode ser um aliado nosso.

Acredita que o efeito Marina Silva ajudou a fortalecer a causa ambiental?

O sucesso da Marina não está só na questão ambiental. Ela levantou bem a bandeira ética. Se ela tivesse só o discurso ambiental, como Cristovam (Buarque) fez com a educação, talvez não tivesse tido a votação que teve.

Qual será o impacto ambiental da obra do trecho norte do Rodoanel na Serra da Cantareira? Ambientalistas e moradores temem um cenário devastador...

A ideia da obra é conter o avanço da população sobre a Serra da Cantareira. Ela vai servir inclusive como um obstáculo à ocupação. A obra vai conter a expansão da cidade. Se a área de preservação ambiental não for cuidada, ela acaba em ocupação.

Todas as pendências ambientais relativas a obra do trecho norte do Rodoanel foram resolvidas?

A obra não está 100% aprovada. A Dersa ou o reponsável pela obra ainda precisam apresentar uma série de documentos para obter a licença de instalação. Várias ações ainda precisam ser feitas, como pagamento de compensação ambiental.

Qual a importância dessa obra para o projeto do PSDB em São Paulo?

É uma obra que está há 14 anos sendo feita. É uma promessa de campanha que o governador Geraldo Alckmin está cumprindo. Em 2014 a população vai avaliar o que foi feito.

Ambientalistas dizem que o Consema (Conselho Estadual de Meio Ambiente, órgão ligado a secretária e que dá o aval ambiental para obras) está atuando como carimbador verde do governo para o Rodoanel. O fato de você ser neto do Mário Covas, que vai dar nome ao Rodoanel, e de não ter relação histórica com a causa ambiental não reforçam esse estigma?

Estamos falando de um conselho com 36 representantes. Dezoito são indicados pelo governo, que foi eleito. A população não votou nos ambientalistas. Quem tem o respaldo popular são aqueles conselheiros que foram escolhidos pelo governo. A resistência que existe é normal, já que o Rodoanel é uma obra de grande impacto.

Foi difícil se familiarizar com o tema?

Com certeza. Eu nunca tinha trabalhado no poder executivo. A dinâmica, a ação e a lógica é outra em relação ao legislativo. Fiz uma grande imersão no primeiro mês para poder discutir alguns assuntos.

Os ambientalistas também reclamam que a reunião do Consema que aprovou o Rodoanel foi convocada em cima da hora e não teria dado tempo de estudar o documento...

Licenciamento está ocorrendo há nove meses. Ninguém foi pego de surpresa. Cada reunião do Consema, o conselheiro é informado de todos os EI/RIMAS.

Qual sua posição no debate sobre a mudança no Código Florestal?

Se eu fosse deputado federal, teria votado contra. A discussão na Câmara foi muito apaixonada e pouco técnica. O Senado, que seria apenas o chancelador do que foi discutido na Câmara, resolveu discutir melhor o Código. De um lado ficaram aqueles que queriam "preservar a natureza", de outro os que queriam devastar e produzir. Ninguém está mais interessado em preservar a natureza do que o produtor rural.

A discussão no Senado está sendo mais técnica. Tem alguns pontos que me preocupam. Por exemplo, a possibilidade de compensar áreas preservadas em regiões fora do estado. Fico imaginando a polícia ambiental chegando no produtor rural de São Paulo e perguntando; "cadê a averbação dessa reserva legal?". Aí ele responde que está em Sergipe. Quem vai averiguar isso? O Ibama?

O PSDB caminha para 12 anos de oposição no plano federal. Como o partido deve agir para virar o jogo?

O primeiro semestre foi um grande inferno astral. Todos os dias surgiam notícias negativas. O que falta é o partido se assumir mais como oposição. O próprio governador defende a criação de um gabinete paralelo. É preciso melhorar as criticas aos caminhos do Governo Federal.

O PSDB errou ao não assumir o legado ex-presidente Fernando Henrique nas últimas campanhas presidenciais?

Sem sombra de dúvida. Houve um grande erro de avaliação. Mas nunca é tarde para rever conceitos.

A secretaria enfrenta muitos problemas de obras irregulares no litoral norte?

Há um olhar muito forte do movimento ambientalista no litoral norte. Até porque é a única região do estado em que nós temos um zoneamento ecológico-econômico. Uma das ações do pré-sal, um dos licenciamentos feitos pelo Ibama não prevê que as cidades do LN seriam impactadas.

sábado, 9 de julho de 2011

Alckmin anuncia criação de campus da USP em Santos

Atividades terão início em 2012, com cursos de graduação em Engenharia de Petróleo, especialização em Ética, Valores e Cidadania na Escola e mestrado em Sistemas Logísticos


O governador Geraldo Alckmin anunciou nesta sexta-feira, 8, a criação do campus da Universidade de São Paulo (USP) em Santos. A unidade será instalada no bairro Vila Mathias, em área que abriga o imóvel onde funcionava a escola estadual Cesário Bastos e o galpão da garagem municipal, cedido pela Prefeitura de Santos. Caberá à USP fazer a reforma e a adaptação do local.

“O vestibular é agora e as aulas começam já no ano que vem, no curso de graduação. Além disso, teremos pós-graduação em Sistemas em Logística. Nós teremos mestrado, doutorado, especializações, não só engenharias mas estamos contratando a USP para cursos de pós-graduação lacto sensu para professores do Estado. Vamos ter um centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, e a USP vai participar do parque tecnológico, então serão inúmeros os benefícios para o desenvolvimento da região”, afirmou o governador.

As atividades terão início em 2012, com os cursos de graduação em Engenharia de Petróleo, especialização semipresencial em Ética, Valores e Cidadania na Escola e mestrado em Sistemas Logísticos. A cerimônia de lançamento ocorreu no salão nobre da prefeitura, com as presenças do prefeito João Paulo Tavares Papa, do secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, Paulo Alexandre Barbosa, do reitor da USP, João Grandino Rodas, e do coordenador do Programa Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), Carlos Vogt.

Desde 2002, o curso de Engenharia de Petróleo era ministrado na Cidade Universitária, em São Paulo. A partir do próximo processo seletivo, as novas turmas serão transferidas para Santos. As inscrições para o vestibular da Fuvest terão início no dia 26 de agosto. Serão oferecidas 10 vagas, o mesmo número que era disponibilizado em São Paulo. A previsão da diretoria da Poli é aumentar esse número posteriormente para 50 vagas.

“Queria destacar primeiro a importância de uma universidade pública, gratuita para os estudantes, para toda a região. Depois, uma universidade que está entre as 120 melhores universidades do mundo, como é a Universidade de São Paulo. Depois, a engenharia da Poli. Hoje uma das atividades que mais faltam profissionais são engenheiros e vamos ter um curso inovador como é Engenharia de Petróleo e Gás”, lembrou Alckmin.

O engenheiro de petróleo é capacitado para atuar nos segmentos da cadeia produtiva petrolífera, desde a pesquisa de novas jazidas até a produção de petróleo e gás natural. O objetivo da transferência do curso para o litoral é atender à demanda gerada pelas instalações da Petrobras para a exploração do petróleo da camada pré-sal na Bacia de Santos, o que irá colaborar diretamente nas ações para expansão dos benefícios econômicos e sociais que as atividades petrolíferas vão gerar em toda a Baixada Santista. Além da implantação do novo campus universitário, o acordo prevê a integração da USP ao Parque Tecnológico e a implementação do Instituto Oceanográfico no Porto de Santos.

Pós-graduação

Também foi lançado o novo curso de especialização em Ética, Valores e Cidadania na Escola, resultado de uma parceria entre a USP e o Programa Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). O curso é direcionado a portadores de diploma do ensino superior que estejam exercendo atividades de professor, coordenador pedagógico, vice-diretor ou diretor, em instituição de educação infantil, ensino fundamental, médio ou profissional.

Com duração de 18 meses, em formato semipresencial, o curso de especialização é gratuito, tem carga horária de 480 horas e garante ao formando o diploma da USP. As inscrições terão início na próxima segunda-feira, 11, pelo site da Fuvest. No total, serão oferecidas mil vagas, distribuídas pelos dois campi da USP na capital (300 vagas), Bauru (50 vagas), Bertioga (50 vagas), Campinas (100 vagas), Guarujá (50 vagas), Lorena (50 vagas), Piracicaba (50 vagas), Praia Grande (50 vagas), Ribeirão Preto (100 vagas), São Carlos (50 vagas), Santos (100 vagas) e São Vicente (50 vagas).

FONTE: Governo de SP

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Marta, Covas, Skaf e Eduardo Jorge são os preferidos dos paulistanos




Pesquisa Ipespe mostra que os quatro são considerados os 'melhores candidatos' pelos eleitores para concorrer à Prefeitura


A senadora Marta Suplicy (PT-SP), o secretário estadual de Meio Ambiente, Bruno Covas, o empresário Paulo Skaf (PMDB) e o secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge (PV), são considerados os "mais preparados" para disputar a Prefeitura em 2012, segundo a nova rodada de pesquisa do DIÁRIO feita pelo Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas). Dessa vez, os eleitores foram provocados a responder, dentro de uma lista elaborada pelo Ipespe, quais eles acreditam ser os melhores candidatos de cada partido para concorrer à sucessão de Gilberto Kassab.No PT, Marta tem 48% da preferência dos entrevistados. O ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, aparece em segundo lugar com 25% e o titular da Educação, Fernando Haddad, em terceiro com apenas 4%. Haddad é o preferido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ainda não conseguiu emplacar e se fazer conhecido.No PSDB, o secretário estadual, neto do ex-governador Mário Covas, morto em 2001, está à frente do colega, José Aníbal (Energia), por apenas três pontos, dentro, portanto, da margem de erro do levantamento, de 2,2 pontos para mais ou para menos. Bruno fica com 26%, enquanto Aníbal tem 23%. Outros 10% citaram o secretário estadual de Cultura, Andrea Matarazzo, que acabou de entrar na disputa.PMDB/ Os números dão munição para o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, brigar pela vaga no PMDB com o deputado federal Gabriel Chalita. Os dois travam uma guerra branca para ser o escolhido. Favorito da cúpula peemedebista, Chalita perde novamente para Skaf no levantamento do Ipespe. Ele é citado por 24% dos paulistanos como o melhor candidato contra 36% de Skaf. Nas duas outras pesquisas feitas pelo instituto o empresário também ficou à frente do "adversário interno".Quando os nomes do PV são colocados para os entrevistados, a grande maioria (61%) disse não saber quem é o mais preparado ou não quis responder entre Eduardo Jorge e o deputado federal Ricardo Izar. Entre os que citaram um dos nomes, 25% mostraram preferência pelo secretário, que pode ser o candidato do prefeito Gilberto Kassab (PSD), e 14% pelo parlamentar.Racha/ Na pesquisa, os eleitores também declararam a preferência partidária. Entre os simpatizantes do PSDB, as posições dos dois principais candidatos do partido se invertem. Bruno Covas, preferido pelo conjunto dos entrevistados, perde para Aníbal.Nesse público específico, o secretário de Energia é citado por 38% dos tucanos enquanto Bruno Covas fica com 34%. O titular do Meio Ambiente "vira o jogo" com o apoio dos "simpatizantes" do PMDB (49% a 21%) e do PV (31% a 28%). Já os petistas preferem Aníbal (27%) a Covas (23%). Essa divisão não se repete no PT. Marta é apontada como melhor candidata por 66% dos eleitores que admitem simpatia pela legenda. Aloizio Mercadante é citado por 27%. Fernando Haddad tem o apoio de somente 2% dos "petistas".No PMDB, Paulo Skaf também é o preferido de 52% dos eleitores do partido enquanto Gabriel Chalita fica com 30%. Pesquisa foi feita nos dias 29 e 30 de junhoO Ipespe ouvi duas mil pessoas, moradores da cidade de São Paulo, com 16 anos ou mais, pelo telefone. Todos os públicos foram questionados. 2,2% é a margem de erro do levantamento.PT é o partido com mais 'simpatizantes'Dos dois mil entrevistados, 36% apontaram ter simpatia pelo PT, 11% pelo PSDB, 5% pelo PMDB, 3% pelo PV e 3% por outras legendas. Cinco por cento não souberam ou não responderam. Outros 39% disseram não ter preferência por nenhum partido.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Até o próximo escândalo

Dilma Rousseff foi vendida ao país na campanha eleitoral do ano passado como a eficiência em pessoa. Mas, a cada dia que passa, vai ficando mais claro o logro da gerentona de mão cheia. Seja nos descalabros no Ministério dos Transportes, seja em titubeios no dia-a-dia, a presidente demonstra fragilidade, tibieza e sérias dificuldades para impor suas decisões. Tudo o que não se viu nestes seis primeiros meses de gestão foi a eficácia prometida nos palanques.

Ontem, o Palácio do Planalto achou por bem manter Alfredo Nascimento no cargo de ministro de uma pasta conflagrada de irregularidades e corrupção. O noticiário diz que Dilma determinou uma "devassa" nos contratos da pasta e encomendou um "pente fino" à Controladoria Geral da União (CGU). Mas preferiu não bulir com o PR.

É mais um recuo na conta da presidente, cujo histórico de idas e vindas começa a se tornar folclórico. A semana começara com Nascimento na corda bamba, mas com ameaças nada veladas de "rebelião" da base aliada em caso de punição aos infratores do PR nos Transportes. Dilma, mais uma vez, acusou o golpe e preferiu não pagar para ver. Que autoridade é esta?

Há motivos de sobra para fazer uma faxina geral no Ministério dos Transportes. A pasta acumula um histórico de malfeitos, cujos pedágios de 4% e 5% cobrados pelos "republicanos" são só a cereja mais vistosa do bolo. Como maior destinatário de verbas do PAC, é lá onde aflora mais dinheiro para os dutos da corrupção. Obra que é bom, pouca.

A Folha de S.Paulo informa hoje que, neste ano, o ministério aumentou os valores de pelo menos 11 contratos de obras em estradas e ferrovias que tiveram irregularidades apontadas pelo TCU. Foram R$ 113,5 milhões para empreendimentos suspeitos, tocados pelo Dnit e pela Valec, cujos dirigentes foram afastados neste fim de semana.

Em dois contratos da ferrovia Norte-Sul, sob a alçada da Valec, o TCU sugeriu a paralisação da obra, com suspeita de superfaturamento de R$ 120 milhões. A recomendação não só não foi acatada, como os contratos foram aditados - ou seja, aumentaram de valor.

Tem mais. Segundo O Estado de S.Paulo, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam superfaturamento num trecho da Norte-Sul entre Santa Isabel e Uruaçu (GO). A suspeita é de conluio: para fazer a obra, sete empresas foram habilitadas, houve sete vencedoras diferentes, para sete lotes disponíveis.

Só neste caso, o prejuízo aos cofres públicos ultrapassa R$ 71 milhões em valores atualizados. Mas as suspeitas de irregularidades estendem-se a toda a obra da ferrovia, desde o Maranhão até Brasília. A PF aguarda conclusão da fase de instrução para produzir novos relatórios.

Ontem, a CGU informou que tanto na esfera do Dnit quanto na da Valec pesam pelo menos 18 processos administrativos disciplinares e sindicâncias instauradas de 2009 a 2011. Envolvem cerca de 30 dirigentes e servidores. Outros 150 processos foram instaurados pelo Ministério dos Transportes, 66 relativos ao Dnit. O governo pode até parecer diligente, mas punição que é bom, nada.

Não há dúvida alguma de que o Ministério dos Transportes era usado como um feudo do PR para todo o tipo de ação espúria. E não é de hoje. É desde o governo Lula, desde a época em que - conforme martela a propaganda oficial - Dilma Rousseff cuidava, zelosamente, da eficiência da máquina petista.

Ao manter Alfredo Nascimento no cargo, pode ser que a presidente não tenha simplesmente recuado, acossada pelas ameaças de um partido que tem 40 deputados, cinco senadores e uma ficha corrida de dar medo. Pode ser que tenha, simplesmente, feito, mais uma vez, o que sempre se faz nos governos do PT: passado a mão na cabeça dos aloprados da hora e mandado tocar o barco adiante. Até que surja o próximo escândalo.

Fonte: ITV

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A soma e o resto

Ou encontramos convergência, ou haverá riscos de ruptura ecológica e social

Tomo de empréstimo o título de um livro de Henri Lefebvre, escritor francês que rompeu com o Partido Comunista em 1958 e publicou suas razões para tanto neste livro de 1959. Anos mais tarde, em 1967/68, fui colega de Lefebvre em Nanterre, quando demos início, junto com Alain Touraine, Michel Crozier e com o então quase adolescente Manuel Castells, a uma experiência de renovação da velha "Sorbonne", na área das ciências humanas.

Sempre gostei do título do livro de Lefebvre e agora, ao escrever estas linhas — sem qualquer pretensão a devaneios psicanalíticos — , recordo-me também de que Lefebvre tinha uma grande semelhança física com meu pai. Mas o fato é que há momentos para fazer um balanço.

No caso, Lefebvre descontava o que o Partido Comunista lhe tirara, ou ele do mesmo, e via o que sobrava: a experiência dramática das revelações que Kruchev fizera dos horrores stalinistas, somada à invasão da Hungria, provocou uma remexida crítica na intelectualidade europeia, que não deixou de afetar a brasileira e a mim próprio.

Hoje, ao completar 80 anos, diante do fato inescapável de que o tempo vai passando e às vezes não deixa pedra sobre pedra, eu, que não sou dado a balanços de mim mesmo (e nem dos outros), senti certa comichão para ver o que resta a fazer e a soma das coisas que andei fazendo.

Mas não se assuste o leitor: o espaço de uma crônica não dá para arrolar o esforço de oito décadas para tentar construir algo na vida, quanto mais para alistar o muito de errado que fiz, que pode superar as pedras que eventualmente ficaram em pé. Além do mais, prefiro olhar para frente a mirar para trás.

Quando algum repórter me pergunta o que acho que ficará de mim na História, costumo dizer, com o realismo de quem é familiarizado com ela, que daqui a cem anos provavelmente nada, talvez um traço dizendo que fui presidente do Brasil de 1995 a 2003.

Quando insistem em que fiz isso ou aquilo, outra vez meu realismo — não pessimismo, nem hipocrisia de modéstia — pondera que, no transcorrer da História, quem sobra nela é visto e revisto pelos pósteros ora de modo positivo, ora negativo, dependendo da atmosfera reinante e da tendência de quem revê os acontecimentos passados. Portanto, melhor não nos deixarmos embalar pela ilusão de que há pedras que ficam e que serão sempre laudadas.

Além do mais, dito com um pouco de ironia, se o julgamento que vale para os homens políticos e mesmo para os intelectuais é o da História, de que serve o que digam de nós depois de mortos?

Pois bem, se é assim, se o que vale é o agora, não tenho palavras para agradecer a tantos, e foram muitos, os que se referiram a mim com generosidade neste passado mês de junho.

Mesmo sabendo, repito, da efemeridade dos juízos, é bom escutar pessoas próximas, não tão próximas e mesmo distanciadas por divergências, procurarem ver mais o lado bom, quando não apenas ele, e expressarem opiniões que me deixaram lisonjeado e, a despeito de meu realismo, quase embalado na ilusão de que fiz mais do que penso ter feito.

Como não posso agradecer a cada um pessoalmente, nem desejo deixar de lado alguém, nem os muitos que me disseram pessoalmente palavras de estímulo ou as registraram por cartas, e-mails ou na web, aproveito esta página de jornal para reiterar que não sei como exprimir o quanto a solidariedade dos contemporâneos me emocionou.

Não posso me queixar da vida. Vivi a maior parte do tempo dias alegres, mesmo que muitas vezes tensos. Assim como senti as perdas que fazem parte de sobreviver. Perdi muita gente próxima ou que admirava à distância nestes 80 anos. Pais, irmãos, mulher, amigos, amigas, companheiros de vida acadêmica e política.

Ainda agora, para que nem tudo fosse rosas, perdi às vésperas de meu aniversário um companheiro de universidade com quem convivi cerca de 50 anos, Juarez Brandão Lopes. E, no momento em que escrevo estas linhas, veio a notícia da morte de Paulo Renato Souza, companheiro, colaborador, grande ministro da Educação, colega de exílio.

As perdas, para quem está vivo, são relativas. Aprendi a conviver na memória com as pessoas queridas e mesmo com algumas mais distantes, com as quais "converso" vez por outra no imaginário para reposicionar o que penso ou digo. Tomo em conta o que diriam os que não estão mais por aqui, mas deixaram marcas profundas em mim.

Na soma, não cabe dúvida, mantive mais amigos que adversários. Não sinto rancor por ninguém, talvez até por uma característica psicológica, pois esqueço logo as coisas de que não gosto e procuro me lembrar das que gosto e pelas quais tenho apego.

Por fim, para não escrever uma página muito água com açúcar, se me conforta ter tantos amigos e receber deles tanto apoio e se prezo a amizade acima de quase tudo, devo confessar que, apesar de meu pendor intelectual ser forte, no fundo, sou um homo politicus.

Herdado de meus pais e de algumas gerações de ancestrais, vivo a vida na tecla do serviço ao público, da polis, e para mim o público hoje não é apenas o brasileiro, mas tem uma dimensão global. Pode parecer "coisa de velho", mas o fato é que a esta altura da vida estou convencido, sem prejuízo das crenças partidárias e ideológicas, de que cada vez mais, como humanidade, como cidadão e como seres nacionais, simultaneamente, estamos nos aproximando de uma época na qual ou encontramos alguns pontos de convergência, uma estratégia comum para a sobrevivência da vida no planeta e para a melhoria da condição de vida dos mais pobres em cada país, ou haverá riscos efetivos de rupturas no equilíbrio ecológico e no tecido social.

Não é o caso de especificar as questões neste momento. Mas cabe deixar uma palavra de advertência e de otimismo: é difícil buscar caminhos que permitam, em alguns temas, uma marcha em comum, mas não é impossível. Tentemos.

Vi tanta boa vontade ao redor de mim nestas últimas semanas que a melhor maneira de retribuir é dizendo: espero poder ajudar a todos e a cada um a sermos mais felizes e dispormos de melhores condições de vida.

Guardarei as armas do interesse pessoal, partidário ou mesmo dos egoísmos nacionais sempre que vislumbrar uma estratégia de convergência que permita dias melhores no futuro. Com confiança e determinação, eles poderão vir.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi Presidente da República

O arcabouço da democracia está montado. a alma, não

Para ex-presidente, País precisa de ‘convergência’ para avançar e visão dualista de que PT é povo e PSDB é elite precisa acabar



Horas depois da homenagem que recebeu do PSDB em Brasília na quinta-feira pela celebração de seus 80 anos, o ex-presidente recebeu o Estado em seu apartamento na capital paulista, em Higienópolis. O cansaço não encobria a felicidade evidente. Desabrido, pregou o fim da tensão com o PT – “é importante para a democracia” – e fez uma análise sobre a atual conjuntura, com a sensatez de sociólogo e a maturidade de ex-presidente. Sobre seu governo, enumera com orgulho os avanços que conquistou – e também os reconhece na Era Lula. A preocupação, hoje, é com a solidez da democracia. “O esqueleto está aí”, diz. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

O sr. lavou a alma nesta homenagem do PSDB aos seus 80 anos com o reconhecimento que faltou em momentos do passado?

(Risos). Não só hoje. Olha, hoje o meu partido se desdobrou em gentilezas, reconhecimentos. Foram muitos, do PT, de todos os partidos. Eu disse assim: Parece que eu morri, porque no Brasil só se elogia morto (Risos). Acho que o PSDB sempre me tratou bem, com carinho. O que tem é que às vezes, nas campanhas eleitorais, por razões de marquetismo (marketing), um opina uma coisa, outro outra, então… Nunca acotovelei ninguém para aparecer nem para buscar reconhecimento. É difícil julgar processos de mudanças que não são atos, sobretudo quando o outro que ganha quer se empenhar em fazer de conta que ele começou tudo. O que interessa mesmo para o homem público ou para o intelectual é o julgamento da história, que é feito quando você está morto. Não adianta nada. É melhor você ter isso que eu tive agora, vivo, do que saber o que vai acontecer no futuro. Pelo menos você diz: está bem, fui reconhecido. Claro que foi bom para mim. Não é só para mim. O que é bom no Brasil é não mantermos uma tensão permanente e desnecessária, que era o que estava acontecendo.

Uma tensão política, PT e PSDB?

Fla-flu, é. Isso não é positivo. Repito: a Dilma teve um papel, porque ela teve um gesto. Você pode dizer que é banal. Não é banal não. Ela mudou muito a ênfase do que se dizia, e também não foi além do necessário. Não foi para dizer que não temos divergências. Temos, mas podemos conviver de uma maneira civilizada. Isso é importante para a democracia. Essa tensão permanente é do pessoal que acredita que a mudança, hoje, ainda se dá por ruptura. Mas quando a sociedade é aberta, a mudança não se dá por ruptura, se dá por acumulação.

E o sr. acha que o responsável por isso foi o ex-presidente Lula?

Não só. Acho que foi o espírito de competição do PT num dado momento, que é normal. Preparei uma legislação para facilitar a transmissão de poder. Quando eu passei a faixa para o Lula eu tive emoção. As pessoas se esquecem, mas nas grandes greves eu estava lá ao lado do Lula. Mais para frente, nas Diretas Já, aqui, na Praça Charles Miller, o PT fez uma manifestação, e eu fui representando o PMDB. Eu não fui vaiado porque tive que dizer que o Teotônio Vilela tinha morrido. Daquele momento em diante começa esse tipo de atitude política, que tem a ver com a visão passada, de que só um partido vai mudar o Brasil, só uma classe é capaz de ter papel na história, e de que ficam predestinados a governar. Então quando eu ganhei duas vezes do Lula eu estava atrapalhando o destino histórico do Brasil. Essa é a percepção deles. Eu queria quebrar isso. Tínhamos convivido bem na transição. Esperava que dali em diante houvesse uma certa distensão. Mas, logo em seguida, o PT resolveu que o PSDB era o inimigo. O (José)Dirceu queria fazer uma aliança com o PMDB, não conseguiu, e fizeram aquela aliança que deu no mensalão. O mensalão é fruto dessa irracionalidade, da impossibilidade de ver que forças que eram mais próximas poderiam se entender em certas questões e que não seria preciso os meios que foram usados. A política no Brasil virou escândalo. Para ter vantagem eleitoral o PT tinha que pintar o PSDB como o da elite. Ora, isso é uma visão simplista. A diferença entre o PT e o PSDB é muito mais política. É como se tivesse prevalecido em setores importantes do PT a ideia leninista. Ou seja, tem um partido da classe historicamente capaz de mudar a sociedade, esse partido ocupa o Estado, e o Estado muda a sociedade. O PSDB é mais contemporâneo. A sociedade tem que ter peso equivalente ao do Estado.

Por que o PSDB não se liberta da pecha de elitista?

É curioso, porque é uma pecha fácil de se libertar. O PSDB ganha, na verdade, nos Estados em que há mais mercado, e o PT onde o Estado tem que ajudar muito porque o mercado é mais débil. Agora, nos Estados em que há mais mercado, o PSDB ganha também nas classes populares. Isso é uma imagem que tem que ser destruída. Deriva desta visão dualista que precisa acabar, que um elite, o outro povo. O Lula pertente à elite política, obviamente. Então essa é uma ideia falsa que o PSDB precisa encontrar mecanismos de destruição disso, enfrentando. Porque você não desfaz as coisas se ficar com medo. Quando você olha o salário mínimo real, aumentou desde o governo Itamar, com o Real, e seguiu no meu, e seguiu no do Lula. É cumulativo.

O sr. vê mais traços de continuísmo que inovação no governo Lula?

O tripé econômico está aí, mal ou bem. As agências regulatórias estão aí, umas funcionam outras não. Acho que o Lula deu amplitude muito maior aos programas sociais porque ele se beneficiou de uma conjuntura boa, mas não só por isso. Ele representava diretamente esse setor. O Brasil, no que diz respeito ao hardware, avançou muito. As empresas brasileiras são muito boas. A empresa estatal brasileira virou empresa. Deixou de ser repartição pública. Compete. Agora, falta muito no software. O esqueleto está aí. Isso vale para tudo. O arcabouço da democracia está montado; a alma, não. Porque você não tem ainda aquele sentimento que é básico na democracia de que pelo menos perante a lei nós somos todos iguais, apesar das desigualdades sociais. Aqui a lei não é igual para todos. Você não pode passar a mão na cabeça de quem transgrediu. Se há um lado que o Lula podia ter nos poupado é esse permanente de, se tem um deslize, ele dizer que não foi grave. No fundo, é uma coisa de cultura política. Está um pouco fora de moda de falar, mas faltam valores democráticos. Alguns foram introduzidos, como a ideia de que a igualdade econômica é importante. Houve dois momentos grandes da queda da pobreza. O primeiro foi o Real, consistente. Agora foi esse boom econômico atual, mais as bolsas (transferência de renda). Não gosto desta ideia de que falta um projeto nacional. É autoritário. Por isso que eu fiquei contente com essa pelo menos aparente mudança de atitude (com o gesto da presidente Dilma). Nas sociedades modernas, você tem que buscar algumas estratégias de adesão. Convergência não é adesão ao partido. Convergências sobre alvos comuns. E aqui temos que olhar para a frente. E não ficar simplesmente nos gabando do que já fizemos. Tem que crescer, tem que dar emprego, mas tem que entender o que vem pela frente. Nós não introjetamos efetivamente os desafios produzidos pelo meio ambiente. Se o Brasil quiser ser realmente um País de primeiro mundo, é educação, tecnologia, disciplina, cultura mais pragmática de produção. Temo que estejamos nos acomodando a voltarmos a ser uma grande economia produtora de matéria prima e minério. Está faltando uma certa praticidade e uma determinação de continuidade. Quando a política obriga a repartir muito, e a ter o zigue-zague, impede a continuidade da administração. Tem que evitar o butim do Estado.

O Congresso hoje não tem agenda própria. Isso preocupa?

As grandes decisões nacionais não passam mais pelo debate público. Há uma despolitização que é fruto, por um lado, da prosperidade – então as pessoas não têm que se mover tanto -, e por outro lado o fato de que houve uma acomodação sobre os problemas no sentido em que só um opina. Tem que repolitizar. Não transformar só em nomeio ou não nomeio. Tenho a impressão de que a presidente Dilma resiste um pouco a esse estilo de política.

Há riscos inflacionários – sobretudo no processo global – que possam afetar o desenvolvimento do País?

Sempre há (risco) no processo global com o que os EUA estão fazendo, que é inundar o mundo de dólares. Têm efeitos que podem ser inflacionários. Mas aqui a nossa inflação não vem só de fora para dentro, vem de dentro também. A expansão do gasto desordenada nos dois anos do governo Lula obrigou o governo atual a ter uma posição fiscal mais rígida. Com o Real criamos mecanismos de controle. Acho que dá para controlar se fizer uma política fiscal austera. Agora, se quisermos aumentar a produtividade, as reformas têm que voltar. Temos uma relativa desindustrialização no Brasil.

O sr. se engajou num debate importante sobre a regulamentação da maconha. A política brasileira é refém dos costumes?

Em geral a política é refém dos costumes. Esse debate, a meu ver, tem que ser na sociedade antes de ser na política. Não é hora de fazer esse debate no Congresso. É hora de fazer agitação na sociedade. Eu entrei nessa questão pelas minhas preocupações globais. Eu li um livro, de um amigo meu, o Moisés Naím, chama-se Ilícito, onde ele mostra a globalização do crime na década de 90. Tudo virou uma teia mundial e está tendo efeitos devastadores no planeta. Agora, criamos uma Comissão Global de Drogas. Fizemos um relatório muito importante, porque dá recomendações. Não é de liberar. É dizer: olha, cuidado, vamos tentar separar a maconha e combater o uso. Combater sem jogar na cadeia, combater o criminoso. Tirar do aspecto puramente repressivo e ir para a redução do dano.

Como presidente foi mais conservador do que gostaria? Fez revisionismos de seu governo?

Nenhum presidente tem liberdade para implementar o que deseja. Já disse inúmeras vezes que poderia ter desvalorizado o Real sem que explodisse o mercado. Quando? Não sei. Talvez em janeiro de 1997, antes da crise da Ásia. As pessoas falam: populismo cambial para ter reeleição. Que reeleição? Era medo da volta da inflação. Há outras coisas que poderia ter feito. Talvez eu tenha sido demasiado ambicioso em mandar muitas reformas. Talvez eu pudesse ter sido mais comedido. Muitas coisas talvez teria feito de outra maneira. Mas são águas passadas…

O sr. se arrepende de não ter se engajado na campanha do José Serra (em 2002) ? O sr. foi neutro. Se arrepende de não ter feito o que o Lula fez para Dilma?

Não me arrependo porque acho que o que o Lula fez foi errado. Você não pode jogar a máquina. O Estado é de todos. O presidente representa o Estado. Quando esse presidente entra na jogada e usa recursos do Estado, ele está favorecendo uma parte. E ele não pode fazer isso. O presidente, certas horas, tem que virar magistrado, ainda que seu partido perca. Seu partido tem que crescer por si. É claro que eu queria que o Serra ganhasse, mas não acho que deveria ter sido diferente. Vou dizer uma coisa que pouca gente refletiu sobre: o meu sucessor natural, do meu partido, morreu. Era o Mário Covas. Isso tínhamos já conversado. Na última conversa que eu tive com ele sobre esse assunto ele já não podia mais, porque estava doente. Então não tinha um sucessor natural no partido.

Se decidiu pelo Covas quando?

Olha, me decidi por ele quando houve a reeleição. O Mário era muito resistente à história da reeleição. Ele podia ser candidato, ele próprio, como poderia o Serra também, o Maluf e o Lula. Mas se opuseram. Eu compreendo isso. O Mário disse: então não vou me reeleger aqui. Ele era leal. Não atrapalhou a reeleição. Era contra, mas não atrapalhou. Disse que em São Paulo não concorreria. Eu vim a São Paulo. Disse: “Mário, você me desculpe, vai ter que ser candidato, ou então vamos perder a reeleição. Agora, tenha certeza de que, na próxima eleição, você é o meu candidato”. Isso ninguém sabia.

Ele aceitou?

Ele não aceitou, propriamente. Talvez tivesse ficado meio desconfiado. Mas eu lembro que… o Pimenta da Veiga está vivo… Estou com um medo dessas coisas porque as pessoas vão morrendo e eu estou vivendo demais… Isso atrapalha… Não tenho a base de apoio. (Risos) O Mário foi ao (Palácio)Alvorada e o Pimenta foi com ele. Neste dia que eu disse: “Mário, agora temos que efetivar” (a candidatura). Foi nesse dia que ele me disse que não podia.

O sr. se lembra quando foi isso?

Em que ano que ele morreu? Foi 2001, por aí. Aí ficamos sem um sucessor natural. Como tomei a decisão, quando deixei o governo, de me afastar da política partidária para ser ex-presidente e não candidato a outras coisas, de alguma maneira eu deixei um espaço que abriu oportunidade para muita discussão interna. Não se estabeleceu uma hierarquia clara. Ficou sempre tensionada a sucessão. Seria pretencioso da minha parte dizer que se tivesse mais ativo eu imporia. Não sei. Não é meu temperamento e o PSDB não tem dono. Ou você tem uma liderança natural ou não vai. Eu virei presidente não porque eu quisesse. Foi por causa do Real. Ou era eu ou perdia. O Mário seria aceito porque tinha a liderança natural.

O caminho está mais pavimentado e natural para o Aécio Neves em 2014?

Está difícil prever isso hoje. Nós temos dois, três, até quatro pessoas que têm alguma aspiração e mérito para isso, que estão em posições diferentes. No fundo, quem é o candidato de um partido quando esse partido não tem dono? É aquele, que num dado momento, dá impressão à opinião pública de que ele é uma pessoa que pode ganhar. Agora temos que cuidar de eleição municipal. Depois, vamos ver quem, neste período, se firmou como líder nacional. O Serra já tem ressonância nacional, mas está fora do jogo de posições institucionais. O Aécio ainda não tem ressonância nacional, mas tem uma posição institucional forte no Congresso. O Geraldo (Alckmin) também, ou até o Marconi (Perillo). Qual deles vai, daqui a três anos, estar batendo com o sentimento do País? Quem é que sabe? Sofremos do mal da abundância. No PT só tem um, o Lula.

O sr. é a favor das prévias no PSDB?

Depende de como. Quem vota? Quem está qualificado para? Tem que definir melhor, com antecedência. É tarefa para a direção atual do partido.

Vivemos a falência do DEM, criação do PSD, e a dificuldade de sobrevivência da Marina Silva, que com 20 milhões de votos não conseguiu ficar no PV. O sr. diz que o voto não dá mais legitimidade sozinho. Como analisa o avanço das redes sociais – um exemplo é a repercussão do metrô de Higienópolis – e as respostas da classe política a isso?

Diga-se de passagem que eu sou ultra favorável ao metrô de Higienópolis, viu! Hoje, nesse tipo de sociedade, aberta e moderna, a mensagem é muito importante. O Obama não tinha probabilidade de ganhar da Hillary na primária. Ganhou na mensagem. Coisa simples: Yes, we can. A Marina é um pouco isso. Ela tem uma trajetória e tem uma mensagem. Será suficiente para isso galvanizar? Não sei. Mas isso mostra que realmente hoje se você for fiado apenas nos mecanismos tradicionais pode não chegar lá. A Dilma chegou fiada no carisma do Lula. Essa questão da deslegitimação da representação é complicada, porque você não tem uma democracia sem instituições. E as instituições parece que estão indo para um lado e a opinião vai para outro. A agenda da internet é uma, a do Congresso, quando tem, é outra, e a do governo é outra. A internet explode, mas não constrói. Os partidos vão ter que continuar existindo. As instituições vão ter que continuar existindo. Como é que você faz com que elas se acasalem é que é o problema. Naquele meu artigo que deu tanta polêmica, o que eu estava querendo dizer era isso. Olha, têm novas camadas aí. São radicais livres, estão soltos, não têm representação. Votam, mas não se sentem representados. Nossa cultura é de comando, e a cultura moderna é de persuasão. Então esse caminho nós temos que percorrer ainda.

Fonte: O Estado de São Paulo

terça-feira, 28 de junho de 2011

Paulo Renato: a competência generosa

Jose Serra

“Zé, vou te dizer uma coisa: poucas vezes estive tão bem, tão feliz, como agora.” Ouvi isso do Paulo Renato num momento do balanço de vida que fizemos na noite do domingo passado, no seu apartamento. O pretexto do encontro foi a reativação do Instituto Social-Democrata, que ele presidia. Mas esse tema exigiu pouco das três ou quatro horas em que lá estive.

Ele acabara de voltar de um hospital de Porto Alegre, onde fora acompanhar a mãe, que tinha sofrido uma cirurgia. O relato da viagem deu lugar a uma conversa descontraída, sem agenda, de amigos antigos e profundos, com um pouco sobre tudo — o estado das artes de cada um de nós, a situação dos filhos, episódios comuns do passado, pessoas que desapareceram prematuramente e até a saúde pessoal dele.

Ali estava o Paulo, fisicamente bem disposto, animado com o novo trabalho e, naquela altura da vida, sem amarguras ou ressentimentos, satisfeito com o que fizera pela educação no Brasil e em São Paulo, entusiasmado com a visita da sua filha mais jovem, que mora no México, com seus dois netos, mostrando-me até o quarto que tinha preparado para hospedá-los. Aliás, ele sempre foi um pai atento e carinhoso com seus três filhos.

Uma das virtudes do Paulo Renato sempre foi o espírito prático – estudar bem os assuntos, avaliar, fazer acontecer. Mostrou isso como aluno no curso de pós-graduação de economia da Universidade do Chile, funcionário qualificado da OIT na área de políticas de emprego, professor universitário, presidente da Associação de Docentes da Unicamp, membro da equipe da Secretaria de Planejamento, presidente da Prodesp (Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo), secretário de Estado, Reitor da Unicamp, gerente de operações do Banco Interamericano de Desenvolvimento e coordenador do programa de governo do candidato Fernando Henrique Cardoso na campanha eleitoral de 1994. Atuou da mesma maneira no MEC, na Secretaria da Educação em São Paulo e como deputado federal na última legislatura.

Ele tinha enorme capacidade para aprender questões novas para organizar propostas ou decisões. Lembro-me de dois exemplos menores, mas muito ilustrativos. Professor da Unicamp num certo período, coordenou pesquisas para a Coalbra, empresa federal presidida pelo Sérgio Motta, ainda no governo Figueiredo, em plena crise do petróleo, destinada a implantar fábricas de extração do álcool da madeira no Brasil! Num projeto sobre Reforma Tributária, começo dos oitenta, organizado por mim no Cebrap, coube ao Paulo uma das partes mais difíceis: diretrizes para distribuir 20% do então ICM entre municípios de um Estado, fora dos critérios do valor adicionado por cada um deles. Ele não era versado em sistema tributário, muito menos no tema que lhe coube: pouco conhecido, difícil, importante, mas chato. Em pouco tempo, porém, conseguiu sintetizar o assunto e fazer uma proposta engenhosa.

Paulo Renato foi o segundo ministro da Educação mais longevo de nossa história – durante os oito anos de mandato de Fernando Henrique Cardoso —, ficando atrás apenas de Gustavo Capanema, durante a ditadura do Estado Novo. Sua gestão fez enorme diferença para a educação brasileira. Ele conseguiu aprovar a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação e abriu o caminho para as grandes avaliações sobre a situação do nosso sistema de ensino, criando o ENEM e o SAEB, inicialmente tão hostilizados pelas corporações mais partidárias (e reacionárias) da área educacional.

Com sua equipe, Paulo Renato concebeu e implantou o Fundef — marco do reforço da educação básica no Brasil, e contra o qual votaram as bancadas do PT da Câmara e no Senado. O fundo levou mais recursos e descentralização para o ensino fundamental e associou-se a uma das fases de maior expansão do número de crianças na escola, que chegou no limiar dos 100% — ou seja, à universalização do ensino básico. Foram dele, também, o estabelecimento dos Parâmetros Curriculares Nacionais, o primeiro programa de disseminação massiva do Ensino Técnico no Brasil e a criação do programa Bolsa-Escola, que, junto com a Bolsa Alimentação e outros programas do período, deram lugar ao Bolsa Família. Note-se que o Bolsa-Escola partiu do zero e avalie-se, então, o tamanho da competência dos seus gestores iniciais, que o implantaram, com o ministro Paulo Renato à frente. Por último, apesar da badalação do governo Lula em relação às universidades federais, Paulo Renato pôde registrar que, durante o governo de Fernando Henrique, o crescimento de matrículas foi de 6% ao ano, contra 3,2% entre 2003 e 2008 – seis anos do governo seguinte.

No seu segundo período como secretário da Educação em São Paulo — tinha sido secretário também do Franco Montoro —, entre 2009 e 2010, quando fui governador, Paulo Renato construiu os pilares das reformas mais profundas em nível estadual já feitas no Brasil nas últimas décadas – iniciadas, diga-se, antes de ele assumir a secretaria por pessoas de sua equipe no ministério, como a Maria Helena Castro. Entre muitas outras coisas, foi introduzido o mérito – avaliado individualmente e por meio de resultados — como fator relevante de promoção e remuneração. Foi consolidado o programa Ler e Escrever (incluindo a elaboração de material didático para alunos e professores) e criada a Escola do Professor, que ministra quatro meses de cursos posteriores à aprovação de candidatos nos concursos do magistério, a fim de aprimorar suas condições pedagógicas.

Na secretaria, Paulo mostrou mais uma vez quatro outros atributos que marcaram sua vida pública: saber juntar gente preparada para acompanhá-lo; não temer dar-lhes oportunidades de realização e prestígio; manter-se calmo em momentos difíceis e ter coragem de impulsionar mudanças complexas e fundamentais, correndo riscos e enfrentando interesses. Não se creia que era politicamente inábil. Ao contrário, sabia persuadir e negociar com adversários, até em razão de sua atitude de respeito aos outros, paciência infinita e personalidade cordial, sem falar do seu espírito prático. Oitenta por cento das tensões havidas na área educacional durante essa fase das reformas deveram-se a motivações puramente eleitorais, em face da sucessão presidencial e estadual.

No encontro de domingo à noite, evocando sua passagem pelo Institute for Advanced Study de Princeton, onde eu morava e trabalhava, durante todo o verão de 1977, Paulo lembrou da motivação original da viagem: operar os olhos de dois de seus três filhos, feridos pela explosão de um artefato deixado num lugar descampado pelo militares que promoveram o golpe de 1973 no Chile, em alguma de suas ações de controle de território ou pura repressão. Num passeio campestre de toda a família, em 1975, ocorreu a tragédia, por sorte sem consequências graves no longo prazo.

Eu sugeri que ele escrevesse sobre esse período (e outros) de sua vida e relatasse, do seu ângulo, a experiência que viveu no Chile do general Pinochet, incluindo suas ações de solidariedade aos perseguidos na época, como eu próprio. Ele respondeu que seria até prazeroso fazê-lo, que já tinha até pensado em anotar fatos e ideias. Quis a fatalidade que isso agora fique por conta dos seus amigos. O relato de uma vida que fez tanto bem ao nosso povo.

Publicado no Estadão.com.br em 26/06/2011 sobre o ex-ministro Paulo Renato Souza, que faleceu na noite de sábado aos 65 anos

FONTE: Jose Serra

domingo, 26 de junho de 2011

Políticos lamentam morte de Paulo Renato Souza

Desde a madrugada deste domingo, políticos do PSDB e de outros partidos publicaram no Twitter mensagens de pesar pela morte do ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza. Ele sofreu um infarto fulminante no hotel onde estava hospedado em São Roque, interior de São Paulo.

O ex-governador José Serra foi um dos primeiros a se manifestar. Ainda de madrugada, publicou em seu perfil a seguinte mensagem: "Foi-se Paulo Renato, meu querido amigo, um dos maiores homens públicos do Brasil. Foi um grande secretário e um grande ministro da Educação."

O secretário da Cultura de São Paulo, Andrea Matarazzo, afirmou que a morte de Paulo Renato era uma "triste notícia" e classificou o tucano de "um grande ministro. Uma grande pessoa. Bom caráter. Sério".

Em homenagem ao ex-ministro, Matarazzo publicou, ainda, links para três músicas dos compositores austríacos Wolfgang Amadeus Mozart e Franz Schubert, além de retransmitir mensagens de condolências enviadas por internautas.

No início da tarde, o PSDB divulgou em seu site um comunicado assinado pelo presidente nacional do partido, Sérgio Guerra. Segundo Guerra, "o PSDB sente o falecimento do ex-ministro Paulo Renato, um dos nossos grandes quadros. Ele teve uma vida digna e foi um dos melhores ministros que o Brasil conheceu. Vai fazer muita falta à sua família, ao PSDB e ao País".

O atual líder da legenda no Senado, Alvaro Dias, se manifestou na manhã deste domingo ao receber a notícia de um de seus leitores no Twitter. "Os meus sentimentos. Solidariedade à familia e amigos", escreveu o senador.

Duarte Nogueira, que ocupa a liderança tucana na Câmara dos Deputados, divulgou nota manifestando "profundo pesar" pelo colega que, segundo ele "lutou durante toda a sua vida pela educação no Brasil, alicerçou políticas inovadoras para a universalização do acesso à escola e formas de avaliação da qualidade do processo ensino-aprendizagem. Será sempre reconhecido pelos seus méritos e pelo seu legado".

Aloysio Nunes, senador pelo PSDB, afirmou que foi atingido "como um raio" com a notícia da morte, que recebeu via SMS. "Lá se vai uma das melhores figuras de minha geração", disse.
Outros tucanos que se manifestaram na rede social foram o secretário de Energia de São Paulo, José Aníbal e a secretária de Educação do Rio de Janeiro, Cláudia Costin.

PARTIDOS

Políticos de outros partidos também prestaram solidariedade à família de Paulo Renato.

A presidente Dilma Rousseff divulgou um comunicado na manhã deste domingo.

"Recebi com pesar a notícia da morte do ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza. Economista, ex-Reitor da Unicamp e ex-vice presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Paulo Renato prestou relevantes serviços ao país. Neste momento de dor, quero transmitir meus sentimentos a seus parentes e amigos", disse.

Governador de Sergipe, o petista Marcelo Déda lembrou a época em que foi colega de Paulo Renato na Câmara dos Deputados. "Como deputado federal convivia com ele, na divergência, mas com respeito", disse.

"Hoje perdemos Paulo Renato: um querido amigo e um exemplar homem público, um abraço afetuoso a seus familiares e companheiros", afirmou em seu endereço no Twitter o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que saiu do DEM para fundar o PSD.

Germano Rigotto, ex-governador do Rio Grande do Sul pelo PMDB, lembrou as origens gaúchas de Paulo Renato e afirmou que "nos cargos que ocupou sempre trabalhou com muita competência, dignidade e visão de futuro".

EDUCAÇÃO

O também ex-ministro da Educação e agora senador Cristovam Buarque (PDT-DF) se pronunciou sobre a morte de Paulo Renato na rede social por volta das 9h. "Com a morte do Paulo Renato perco um bom amigo e o Brasil perde um competente e dedicado homem público", escreveu Buarque.

O senador defendeu o colega de um internauta que criticou a gestão do tucano à frente do Ministério da Educação. "Não fez a revolução, mas fez o Fundef [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério], levou Bolsa Escola p[ara] o Brasil e deu salto no número de alunos nas Univ[ersidades]", afirmou ele

FONTE: Folha de SP

O ex-presidente e a maconha

Fernando Henrique Cardoso levantou a bandeira: aos 80 anos de idade, o ex-presidente resolveu debater a regulamentação das drogas. Estrelou um filme mostrando que a guerra contra o tráfico é sangrenta, cara e ineficiente - e que o consumo de drogas não deve mais ser crime no Brasil. Como fazer isso? Debater, discutir - e plantar maconha em casa, quem sabe...

O senhor está propondo a descriminalização de todas as drogas ou só da maconha?
Em geral os países são mais lenientes com o uso da maconha argumentando que a maconha causa menos dano do que o tabaco ou o álcool. E a proposta concreta que temos é que o uso da maconha seja regulado pelo Congresso.

O Brasil está preparado para esse passo?
A sociedade tem que discutir. As drogas estão aumentando, e isso é ruim. O consumo está crescendo, e a violência também. A gente tem que fazer alguma coisa.

Na Argentina, o plantio da maconha não é mais crime. É uma opção para o Brasil?
Se for para o caminho da regulação, pode ser uma opção. Mas tem que regular, ver que tipo de plantio está sendo feito. É doméstico? É medicinal?

Mas, sem uma opção como o plantio, a distribuição da maconha continuaria nas mãos do tráfico...
Para descriminalizar, e não simplesmente reprimir, tem que haver algum mecanismo legal de produção - mas para isso, francamente, nós não estamos preparados. Eu sinto que a resistência ainda é muito grande.

O senhor conviveu com algum usuário de drogas?
Nunca convivi. Eu vi agora para o filme. Fora disso, não. [Ele para para pensar] Teve um caso de um filho de um amigo meu, mas ele hoje é normal. Há uma ideia de que, se você entrou nas drogas, não sai mais delas. As pesquisas não dizem isso. Há um momento na vida em que as pessoas experimentam. Para algumas dura mais tempo, para outras menos, e elas saem. Há muito preconceito ainda.

Seu filme diz que pais e educadores falam com os jovens sobre drogas por meio do medo dizendo que elas podem matar. Mas a maioria das pessoas que usam drogas não morre. Como o senhor conversava com os seus filhos sobre o assunto?
É verdade, sempre falam pelo terror. Nós nunca fizemos isso, só falamos como esclarecimento. E nunca tivemos nenhum tipo de problema. E olha que moramos na Califórnia na época do auge das drogas. Mas eu não quero generalizar. Outro dia eu estava fazendo exercícios físicos e uma senhora do meu prédio me disse que estava desesperada porque sua filha tinha entrado nas drogas e estava roubando. O que eu podia fazer? Eu ajudei. Chamei um médico, e ele a colocou no hospital. É isso que tem que fazer: tratar como paciente, como um doente.

O que o senhor acha das marchas da maconha e da liberdade que estão sendo reprimidas pela polícia? Os protestos devem continuar?
Eles vão continuar protestando. Faz parte da inquietação da juventude. Para mim, isso é liberdade de expressão e deve ser garantido desde que não seja feita apologia. E faz parte da discussão. Por que não? É mais uma maneira de colocar em pauta.

FONTE: Super interessante

O BRASIL PERDE PAULO RENATO


Paulo Renato Costa Souza Porto Alegre, 10 de setembro de 1945 São Roque 26 de julho de 2011 foi um economista e político brasileiro.

Paulo Renato Souza ocupou numerosos cargos públicos e executivos no Brasil e no exterior, incluindo o de gerente de Operações do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington, o de secretário da Educação do estado de São Paulo (1984–86) no governo Franco Montoro e o de reitor da Universidade Estadual de Campinas (1987–91) durante o governo Quércia.

Durante os anos 1970 serviu à Organização Internacional do Trabalho (OIT) como diretor-associado do Programa Regional do Emprego para a América Latina e o Caribe, e outras agências da ONU. É formado em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, obteve o seu mestrado na Universidade do Chile e o doutorado na Unicamp – na qual também tornou-se professor - titular de economia.

Foi um dos fundadores do PSDB em 1988, e foi o ministro da Educação durante o governo Fernando Henrique Cardoso de 1 de janeiro de 1995 a 31 de dezembro de 2002. Dentre as suas maiores realizações à frente do ministério da Educação, estão o ENEM e o SAEB.

Em 2006 foi eleito deputado federal pelo PSDB paulista. No dia 27 de março de 2009 licenciou-se do mandato de deputado federal para assumir a secretaria de Educação do estado de São Paulo no governo José Serra (PSDB), substituindo Maria Helena Guimarães de Castro.

Em 16 de dezembro de 2010, pediu demissão do cargo de Secretário da Educação de São Paulo.

Em seu lugar, entrou o secretário-adjunto de Paulo Renato Fernando Padula, que permaneceu apenas 2 semanas no comando até Alckmin ser empossado governador do Estado e o novo Secretário da Educação assumir a pasta, que é Herman Voorwald.

Paulo Renato passava o feriado prolongado de Corpus Christi em um hotel da cidade quando começou a se sentir mal e não resistiu. O velório do ex-ministro será realizado neste domingo, 26, na Assembleia Legislativa de São Paulo.

sábado, 25 de junho de 2011

FHC celebra o aniversário de 80 anos com um balanço de sua trajetória


"O uso de todas as drogas faz mal, inclusive o cigarro, o álcool e a maconha. Todas as drogas fazem mal. Acho que temos que ter sempre campanha de prevenção"

São Paulo — Nas duas últimas semanas, não param de chegar pacotes embrulhados para presente no número 367 da Rua Formosa, no centro de São Paulo. Ali funciona o Instituto Fernando Henrique Cardoso, onde o ex-presidente despacha todas as tardes. No instituto, inspirado nas fundações americanas e mantido com recursos de empresas privadas e um naco da Lei Rouanet, para digitalização do acervo, a maior joia é o próprio FHC. Ele completa 80 anos amanhã com uma disposição de fazer inveja aos mais jovens. Escolhe entre uma ou outra conferência no exterior (“faço palestras em quatro línguas, sem tradutor”). Frequentemente, é consultado para falar sobre a descriminalização da maconha. De forma tímida, reserva espaço na agenda para

Retomar a vida afetiva, três anos depois de se tornar viúvo. “Não namoro bastante porque seria ridículo um velho namorar assim.” E não se furta a participar de discussões ligadas ao PSDB. Quando requisitado, diga-se. Na última quinta-feira, FHC mudou parte da rotina. Encastelado em função de uma gripe — “a saúde não é mais a mesma” —, recebeu a reportagem do Correio em seu apartamento de 300m² na rua Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis. Discorreu sobre vários temas nos 45 minutos de conversa. Separa Dilma do PT. “O PT é o rei da infâmia”, diz. Dilma? “Ela me parece uma pessoa íntegra, menos leniente com desvios.” Sobre a demissão de Palocci da Casa Civil, justo o principal ministro, diz que “são decisões difíceis, mas cabe aos presidentes tomá-las”.

Qual a maior alegria política que o senhor teve ao longo da carreira?
Minha maior alegria pessoal foi ter sido eleito duas vezes presidente. Na verdade, a alegria política é que eu fiz muita coisa pelo Brasil. Quando você chega lá, ou faz muita coisa ou não faz nada. A minha alegria é que mudei muita coisa. A minha intenção é continuar fazendo coisas por aí.

Qual a maior tristeza política?
Não ter conseguido fazer tudo o que queria e tentado demais mexendo em várias coisas ao mesmo tempo, quando talvez não fosse a tática adequada. Mandei tantas reformas estruturais que foi difícil tocar. A verdade é que não dei folga ao Congresso. O tempo todo estávamos de rédea curta, trabalhando, e agenda, agenda, agenda. A reforma da Previdência: se eu tivesse me concentrado num ponto só, talvez tivesse sido mais eficaz do que assustar tanta gente, quando o que queríamos era salvaguardar o sistema previdenciário. Eu talvez devesse ter desvalorizado a moeda antes de 1999. O sistema nosso deixou de ser fixo, era flutuante, mas flutuava pouco. A certa altura mudei a política, mas poderia ter feito antes. Se tivesse, teria evitado a crise de janeiro de 1999.

Na época, o PT dizia que o senhor não mudou por conta da reeleição.
Não tem nada a ver com isso. O PT é o rei da infâmia. Imagina se àquela altura a questão central ia ser a reeleição? Até porque eu ia ganhar a eleição. Os efeitos da mudança da moeda só se fizeram sentir meses depois. O mercado foi quem tomou uma decisão por nós. Insistimos em não mudar porque a equipe estava convencida de que não deveria. Eu estava convencido de que era possível mudar. Só que precisava de gente. Não se muda sozinho, não é um ato de vontade, Havia muita resistência na equipe. Tive que tirar o Gustavo Franco (à época, presidente do Banco Central). Eu gostava muito dele. Se ele tivesse ido para o governo depois de começar a flexibilizar, teria sido melhor. Nunca esteve em cogitação a relação entre câmbio e reeleição. Isso é invenção do PT. Outra invenção: as reformas pararam por causa da reeleição. Ora, reeleição foi em um mês, janeiro de 1997, e toda a população queria, tanto que ganhei. Quem é que não queria? Os candidatos a presidente da República e seus partidos, Lula, Maluf e alguns até do meu partido.

O senhor acha que a reeleição está consolidada no Brasil ou prefere um mandato de cinco anos?
Acho que está consolidada. Precisa ser aperfeiçoada com maior restrição ao uso da máquina. Mas é difícil. Fui candidato e não usei a máquina. No pleito de 2010, não era reeleição e o Lula usou. Não dá para reinventar a roda. Os sistemas que têm dado certo são os de reeleição. Para a construção de uma obra, quatro anos não são suficientes. Nem mesmo cinco. Já seis eu acho muito.

O senhor vai inaugurar um portal. Esse meio de comunicação já se consolidou como instrumento político?
No Brasil, ainda não é como nos outros países, mas é uma força e acho que está se consolidando. A nossa sociedade se modernizou. As pessoas se modernizaram e as instituições políticas, não. Há um descasamento entre a vida na sociedade e a vida política. O Congresso vai para um lado e a sociedade, para o outro. Tirar do Congresso o debate foi uma contribuição negativa do governo Lula. As grandes questões são decididas sem debate. Quem decidiu a expansão das usinas nucleares? Ou a mudança na lei do petróleo? E a construção do trem-bala? Pode ser certo tudo isso, mas não foi debatido.

Mas essas questões foram debatidas no Congresso.
Muito pouco. Sobre petróleo, por exemplo, só se debateu a distribuição dos royalties. E tudo em regime de urgência, urgentíssima ou medida provisória. O debate amorteceu em função da prosperidade, que é evidente, da possibilidade de o governo dar mais benesses, inclusive ao próprio Congresso.

O senhor falou em prosperidade. Isso significa que a presidente Dilma e o PT podem ficar no governo por mais tempo que os quatro anos? Como a oposição vai construir um discurso capaz de quebrar essa onda?
Essa onda (de prosperidade) no mundo está arrefecida. Você não tem a situação que tinha há dois anos para o Brasil. Agora teremos que enfrentar problemas mais complicados. Há um tremendo deficit de infraestrutura. Portos, aeroportos, estradas. E falta dinheiro. O governo vai ter que tomar medidas. A primeira ideia que tiveram (sobre a concessão dos aeroportos) achei boa. Eu tenho que dizer com franqueza: a Dilma tem me surpreendido.

Em que pontos ela o surpreendeu?
Por exemplo, todo mundo diz que a Dilma é uma pessoa agressiva. Comigo não foi de forma alguma.

E na parte administrativa? Ela agiu certo ao demitir o ministro Palocci?
Ainda é cedo para julgar. São decisões difíceis, mas cabe aos presidentes tomá-las.

Qual a sua opinião sobre repassar a administração dos aeroportos à iniciativa privada?
É bom que se faça. É corajoso. Isso requer que as agências reguladoras funcionem.

E como vê essas agências? Certa vez, o senhor disse que criou esses mecanismos de forma a deixar o Estado mais leve, a infraestrutura seria tocada pela iniciativa privada.
Exatamente, desde que as agências controlassem o bem do consumidor, com fidelidade aos contratos. As agências não deveriam ser politizadas. A Agência Nacional do Petróleo foi anulada. Hoje, a Petrobras reina sozinha. A ANP está cheia de pessoal do PCdoB e do PT. Agência não é para isso. Na questão dos aeroportos, é bom que a agência tenha vigor para fazer concessão. O setor privado vai sempre puxar para interesse próprio. O Estado tem que estar presente para que não haja distorção.

A Dilma lhe enviou uma carta elogiosa.
Vi com prazer. Ela foi generosa. Reconheceu o que o antecessor costumava dizer que não era assim.

Algumas notas dizem que o senhor está magoado com o Lula. É verdade? Ainda espera uma ligação dele para cumprimentá-lo pelo aniversário?
Não estou magoado. Ele nunca me ligou por aniversário algum. O Lula e eu, quando estamos juntos, nos damos bem. Agora, ele deve ter algum problema psicológico, tem dificuldade em fazer gestos comigo.

A interlocutores, ele disse ter mágoa em função das campanhas, críticas em tom agressivo.
Isso não. Uma vez o Lula foi lá me ver, no Palácio, quando eu era presidente. Ele tinha perdido a eleição, em 1998. Depois que fui reeleito. Cristovam Buarque presenciou a conversa. Uma certa hora, eu disse: “Ô Lula, nunca vi você na tevê me atacando porque não queria ficar com raiva de você”. E era verdade, eu não via. O pessoal da máquina dizia que eu tinha que ver. Eu não via porque ele era agressivo. Outra vez, estávamos no Alvorada, eu, Ruth, ele e Marisa. Falamos de novo sobre isso e ele, “Ah, mas pessoalmente...”, e eu disse. “Então você depende: tendo gente na frente, pode dizer qualquer coisa, né?”. Não tenho mágoa do Lula. Conheço o estilo. Não é que me doa. Mas, do ponto de vista do Brasil, ex-presidente é bom que tenha uma relação civilizada. Infelizmente, não pude ter uma relação mais civilizada com o Lula.

A carta que Dilma lhe mandou, alguns viram como ponte entre governo e PSDB. Que interpretação o senhor faz?
Primeiro, acho que é uma coisa pessoal. E não é o primeiro gesto. Fui convidado para o almoço do Obama e ela me tratou bastante bem e vice-versa. Em segundo lugar, acho que ela entendeu que era melhor a distensão de um clima crispado. Mas acho que para aí. Não acho que ela queira brigar com Lula.

Uma leitura possível é que ela quer acabar com o clima de guerra entre PT e PSDB?
De alguma maneira, essa coisa cansou, porque é falsa. Os projetos são meio parecidos.

[FOTO2]Onde PSDB e PT se afastam? É a disputa pelo poder pura e simples?
É essencialmente a disputa pelo poder. Dizem que um é de esquerda e o outro é conservador. Não é verdade. Não tem nada disso. Um é privatista, outro não. Não é verdade, está se vendo aí (questão dos aeroportos). Um não liga para o povo o outro liga, também não é verdade, e por aí vai. O que discrepa? O PT mantém uma certa visão de partido, Estado e sociedade que é diferente do PSDB. O PT ainda acredita que o melhor para o país é que um partido, eles, ocupe o Estado e que o Estado mude a sociedade. O PSDB não vai nessa direção. É mais republicano, no sentido de separar mais. Não quero com isso tirar o mérito do governo Lula, do que fez de expansão dos programas sociais. Sendo ele um líder sindical, tendo uma base ligada a esse setor, tem mais facilidade de atender aos reclamos do que outros governos. Agora, os programas sociais todos começaram no meu governo. Do Luz no Campo, distribuição de livros, as bolsas.

Foi correto juntar todas as bolsas no Bolsa Família?
Já havia uma tendência. Era uma questão técnica. As bolsas surgiram como uma proposta do Banco Mundial, hostilizada pelo PT e por muita gente. Depois, houve um movimento de criar um fundo para combate à fome, que o ACM capitaneou. Era dar comida. Isso não é correto do ponto de vista de políticas sociais gerais. Em certas situações extremas, sim, dar comida. Fora disso, tem que dar emprego, instrução ou auxílio transitório. Usamos a educação primeiro, fizemos a Bolsa Escola. E no Ministério da educação, tivemos um problema tremendo: quem iria receber a bolsa? Não queria que fosse por influência política. Criamos então o cartão da cidadania, que copiei do Marconi Perillo, que já fazia em Goiás. A mãe de família e não o homem ia lá sacar o dinheiro. Minha intenção era não politizar as bolsas, não fazer populismo. Quando começou a ideia de integrar — tinha Bolsa Escola, alimentação, vale-gás e tirar criança do trabalho forçado. Cada ministério olhava para o objetivo da bolsa. Ao juntar tudo, complica, cria uma burocracia nova, que não tem o mesmo interesse específico. Por isso, eu tinha resistência a juntar todas. Mas, tecnicamente, a CEF já estava fazendo os procedimentos porque é mais econômico. O que o governo Lula fez, além de juntar tudo, foi a apropriação política da bolsa, o populismo. E perdeu o objetivo. Aliás, o Fome Zero, sob esse ponto de vista, era melhor porque queria ensinar a pescar e não dar o peixe. Por que fui para a Bolsa Escola? Porque o objetivo é educação. O que liberta é o trabalho.

E a política externa? Está correta essa estratégia multifacetada do governo?
Está correta e eu comecei, ou melhor, o Sarney começou e depois seguimos. Não é verdade que era só Estados Unidos. No meu discurso de posse, como chanceler, eu disse que tinha que ir para a Ásia. E fui. Fui ao Japão, à Índia, à China, o primeiro a ir à Malásia. África também fomos. O PT gosta de dizer que começou a história. Já estávamos nessa direção. A diferença do Lula é que ele queria obter uma cadeira no Conselho de Segurança.

O senhor não acha isso correto?
Não vai haver essa cadeira porque não está havendo a mudança. Vamos ter uma cadeira lá, um dia. Mas não agora. O que eles fizeram? Abriram embaixadas. Isso custa caríssimo. Com o objetivo de obter essa cadeira, que não obtiveram. Boa parte das viagens e de apoios em países menores não foi outro senão político, de um protagonismo que não funcionou.

E em relação à ampliação de gestão do FMI, do Banco Mundial?
Acho corretíssimo. Não fiz outra coisa que não fosse pedir isso. Acho que será a médio prazo. Estava lendo um artigo de Ricardo Lagos. Mostra que há uma aceleração desse processo. Quando havia reunião do G-7, eu mandava cartas pedindo a regulação financeira. Apoiei a taxação de fluxos de capitais. Na reunião que tivemos na chamada governança progressiva, em Florença, com vários líderes internacionais, defendi essa tese e não foi aceita. A China cresceu e puxou todos os países.

Como é a vida de ex-presidente? O que o senhor faz no dia a dia?
Fico em casa pela manhã. Trabalho no computador, leio, escrevo. Nada pela manhã é voltado para o lazer. Almoço em casa e, à tarde, vou para o Instituto (Fernando Henrique Cardoso). Recebo gente, tem reuniões, seminários e não sei mais o quê.

No que o senhor se ocupa?
Logo que deixei a Presidência, resolvi desencarnar. Viajei, fui para a França com a Ruth, sem segurança alguma. Andávamos de metrô como pessoas normais. Voltei à vida comum. Depois fomos para os Estados Unidos e eu ficava na biblioteca do Congresso, lendo e escrevendo o livro A arte da política. Também andava de metrô. A Embaixada do Brasil nos oferecia um carro e eu recusava. Queria levar uma vida normal. Só quando era assunto oficial da Embaixada eu aceitava o carro. Nos Estados Unidos, assumi uma posição na Universidade de Brown conhecida como professor-at-large que, em tese, é um professor que faz o que quer, mas eu acabava dando aula magna, seminários e atendia alunos de graduações, o que eu adorava fazer. Fui convidado para a Universidade de Harvard, mas recusei. E olha que estava sem dinheiro. Foi aí que eu descobri que podia ganhar dinheiro falando.

Por falar em estar sem dinheiro, de onde vem essa sua fama de pão-duro?
Realmente tenho essa fama. Não sei de onde vem. A verdade é que eu saí da Presidência e fiquei sem dinheiro. Por causa disso, não era e nem sou consumista.

Hoje o senhor tem investimentos financeiros, dinheiro guardado?
Hoje, sim. Mas quando deixei o governo não tinha nada. Presidente da República não tem salário de aposentado. Assim que saí do governo eu sobrevivia com salário de aposentado da Universidade de São Paulo. Mas eu e a Ruth nunca tivemos aperto de dinheiro. Como professores universitários, levamos uma vida de classe média confortável.

A população tem na figura do presidente uma imagem de pessoa poderosa e com dinheiro. Não é?
Realmente tem essa imagem, mas não corresponde à realidade. Para você ter uma ideia, para eu comprar o apartamento em que moro hoje, tive de vender dois e ainda assim a soma não era suficiente. A editora Record me antecipou um dinheiro de um livro que eu ia escrever e assim consegui comprá-lo.

A fama de pão-duro então é injusta?
Não sei. Só sei que não gosto do ato de tirar o dinheiro do bolso. Se for para pagar com cartão, não ligo. Mas se for com dinheiro vivo, complica. Não gosto de dinheiro.

Como pesquisador, como o senhor vê essa polêmica dos documentos secretos?
Tenho uma explicação difícil de acreditar. No último dia do meu governo, 31 de dezembro de 2002, assinei uma pilha de documentos e decretos que alguém havia levado ao gabinete. Era uma pilha de decretos e assinei. Não tem nesse documento o nome do ministro Pedro Parente nem do general Cardoso, então tem boi na linha. Dois anos depois deu aquela confusão. A verdade é que nunca fui pressionado por nenhuma instituição nesse sentido, nem pelos militares nem pelo Itamaraty. A assinatura adveio de um equívoco e não porque esse ou aquele órgão me alertou.

Mudando de assunto, como o senhor está vendo essa briga dentro do PSDB que parece não ter fim?
Não é possível que o PSDB não aprenda com a história. Governamos São Paulo e Minas, os dois estados mais populosos e mais ricos. Ao unir São Paulo e Minas, temos chances boas de ganhar a eleição presidencial. Temos que ter a capacidade de unir esses dois estados.

O senhor se propõe a fazer essa unidade?
Eu não, já chega.

Na sua leitura, por que o Serra perdeu a eleição?
Por muitos fatores. O mais importante é que o Lula tem muita popularidade e jogou com a máquina, fez uma vasta aliança e teve recursos infindáveis. Tudo isso é verdade e conta. A gente tinha chance de ganhar.

O PSDB tem algum mea-culpa a fazer?
Sempre tem, não só do Serra, mas de todo o partido. O PSDB nunca foi forte em deixar uma marca e trabalhar essa marca. O partido erra ao esconder os benefícios das nossas gestões. Esconde a mim. Mas não estou disputando eleição, nem sou personalista para ir lá e brigar. Acontece que eu já passei da idade dessas coisas. Isso é um erro do ponto de vista do partido. A meu ver, o PSDB também errou ao não politizar as questões.

A violência no campo foi um problema acentuado em seu governo e, 16 anos depois, ainda persiste, principalmente no Pará. Esse tipo de barbárie não tem solução?
Na época do massacre de Eldorado dos Carajás, fui pessoalmente responsabilizado e acusado por PT e MST. O governador do Pará na época, Almir Gabriel, foi processado. Agora, que morreram camponeses e sindicalistas, ninguém acusou o Lula e a Dilma. A verdade é que, apesar de o Brasil ter um PIB não sei de que tamanho, não é um país civilizado completamente. Não é um país em que a cidadania exista pra valer.

O senhor disse que os partidos pequenos se organizam para usufruir de cargos do governo e que o Lula fez a política do toma lá da cá com o Congresso para governar. O senhor acha que a Dilma vai cair nessa armadilha?
Não, porque me parece que a Dilma é uma pessoa íntegra. Ela tem sido mais resistente nessa questão, mas é lógico que há limites para essa resistência. Não sei qual é a tese dela. Ela parece menos leniente com desvios.

O senhor defendia de maneira velada a descriminalização do uso da maconha quando era presidente e agora passou a defender abertamente. O senhor acha que o Brasil realmente está preparado, inclusive na questão da saúde pública, para lidar com o usuário e as consequências que o uso contínuo dessa droga acarreta?
O uso de todas as drogas faz mal, inclusive o cigarro, o álcool e a maconha. Todas as drogas fazem mal. Acho que temos que ter sempre campanha de prevenção. A meu ver, acho que até o uso do álcool deveria ser regulado no Brasil. Queria deixar claro que a minha posição não é do “libera geral”. A minha posição é: não basta pôr na cadeia. O problema é que não há receita geral que dê certo no Brasil. Sempre uso o seguinte exemplo: gosto de vinho, tomo quase todas as noites no jantar. Se tomar no almoço, prejudica o meu trabalho. Se eu pedir uma taça de vinho pela manhã, me levem para o hospital, pois estou doente. O mesmo vale para a maconha. Se a pessoa fumar o dia inteiro, vai ter problemas psicológicos.

O senhor está viúvo há três anos e é um homem bastante admirado pelas mulheres. Como está o seu coração? Já refez a vida afetiva?
Evidentemente, sou um ser humano. Mas isso não quer dizer que tenha alguém efetivamente, que vá casar e tal. Não penso nisso. Aos 80 anos, me casar seria uma temeridade. Além disso, tenho uma família forte e muito ligada a mim. Agora, evidentemente, me relaciono com muitas pessoas. Não namoro bastante porque seria ridículo um velho namorar assim. Não me incomodo em ser admirado de longe pelas mulheres. De perto, vamos devagar porque o santo é de barro e, nesse caso, o santo sou eu.

Agora que o Lula é ex-presidente e começou a dar palestras para sobreviver, assim como o senhor faz, já deu para sentir a concorrência do petista nesse mercado?
Imagina. Eu dou muitas palestras pelo mundo. Não tem uma semana que não receba até três convites para dar palestras fora do Brasil. Todas muito bem remuneradas e algumas até recuso. Eu dou palestra em quatro línguas, não preciso de tradutor. Não existe concorrência. Hoje, não faço mais tantas palestras porque não preciso de dinheiro. Passei a ser muito restritivo.

FONTE: Correio Braziliense